de 23 de fevereiro
O Decreto Regulamentar 1/2020, de 16 de março, procedeu à designação como Zona Especial de Conservação (ZEC) do Sítio de Importância Comunitária (SIC) Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas (PTCON0055), identificando a respetiva área e coordenadas geográficas, assim como a sua localização e limites geográficos. O referido diploma determinou, ainda, que as medidas e ações complementares de conservação de habitats e espécies são definidas em planos de gestão, a aprovar por portaria nos termos do n.º 3 do artigo 7.º do Decreto Lei 140/99, de 24 de abril, alterado pelos DecretosLeis 49/2005, de 24 de fevereiro e 156-A/2013, de 8 de novembro.
Posteriormente, o Decreto Lei 34/2026, de 11 de fevereiro, completou o processo de classificação da ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas, ao contemplar no respetivo plano de gestão a identificação dos tipos de habitat naturais e seminaturais e das espécies da flora e fauna selvagens protegidos, constantes dos anexos i e ii da Diretiva Habitats com presença significativa na sua área, e fixar, em função das características específicas do seu território e das exigências ecológicas desses tipos de habitat e espécies, objetivos de conservação direcionados à manutenção ou ao restabelecimento do seu estado de conservação favorável. Com vista à prossecução dos objetivos fixados, o referido decretolei definiu, ainda, medidas de conservação de natureza preventiva e regulamentar, necessárias para evitar a deterioração dos tipos de habitat naturais e seminaturais e dos habitats das espécies protegidas e com presença significativa na ZEC, assim como a perturbação significativa dessas espécies, as quais se tipificam em medidas de ordenamento do território e medidas de gestão.
Neste contexto, cumpre agora aprovar o plano de gestão da ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas, numa abordagem integrada que dê resposta às exigências ecológicas específicas da ZEC, procedendo à identificação dos tipos de habitat naturais e seminaturais e das espécies da flora e fauna selvagens com presença significativa na sua área e que justificaram o seu reconhecimento como SIC pela Comissão Europeia e a sua subsequente classificação como ZEC, bem como adotando um conjunto de medidas e ações de conservação complementares, designadamente medidas de gestão ativa e de suporte, conforme o disposto no artigo 12.º do Decreto Lei 34/2026, de 11 de fevereiro. O plano de gestão da ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas tem também por função estabelecer as prioridades de conservação da zona, identificando as espécies e os tipos de habitat protegidos com presença significativa na ZEC em relação aos quais se impõem medidas mais urgentes.
Assim, ao abrigo do disposto na alínea a) do n.º 3 do artigo 7.º do Decreto Lei 140/99, de 24 de abril, na sua redação atual, do artigo 5.º do Decreto Regulamentar 1/2020, de 16 de março, e do artigo 12.º do Decreto Lei 34/2026, de 11 de fevereiro, em conjugação com os artigos 15.º, 25.º e 27.º do Decreto Lei 87-A/2025, de 25 de julho, na sua redação atual, que aprova o regime de organização e funcionamento do XXV Governo Constitucional, manda o Governo, pelo Ministro da Economia e da Coesão Territorial, pela Ministra do Ambiente e Energia e pelo Ministro da Agricultura e Mar, o seguinte:
Artigo 1.º
Objeto A presente portaria aprova o plano de gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas, anexo à presente portaria e que dela faz parte integrante.
Artigo 2.º
Âmbito 1-O plano de gestão da ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas identifica os tipos de habitat naturais e seminaturais e as espécies da flora e fauna selvagens com presença significativa na ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas e adota medidas e ações complementares de conservação.
2-O plano de gestão da ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas deve ser aplicado em conjunto e simultaneamente com o Decreto Regulamentar 1/2020, de 16 de março, e com o Decreto Lei 34/2026, de 11 de fevereiro, que fixou os objetivos específicos para a sua conservação e estabeleceu as medidas de conservação de natureza regulamentar necessárias para atingir esses objetivos.
Artigo 3.º
Entrada em vigor A presente portaria entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação.
Em 20 de fevereiro de 2026.
O Ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida.-A Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.-O Ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes.
ANEXO
(a que se refere o artigo 1.º)
PLANO DE GESTÃO DA ZEC DUNAS DE MIRA, GÂNDARA E GAFANHAS (PTCON0055)
LOCALIZAÇÃO
A ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas, com uma área total aproximada de 20 497 ha, localiza-se nos concelhos de Cantanhede, Figueira da Foz, Mira e Vagos, conforme se apresenta no Quadro 1. A localização encontra-se representada cartograficamente na Figura 1, estando os seus limites disponíveis no geocatálogo da Autoridade Nacional da Conservação da Natureza e Biodiversidade.
QUADRO 1
Unidades territoriais abrangidas pela ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas
CARACTERIZAÇÃO
A ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas caracteriza-se por um cordão dunar litoral contínuo, com mais de 45 km de extensão, que forma uma planície de substrato arenoso ocupado por um povoamento vegetal de resinosas e matos, pontuado por pequenas lagoas abastecidas pelas linhas secundárias de água doce em presença. Quer em termos de desenvolvimento espacial, quer em termos de unidade sedimentar e ecológica, a ZEC destaca-se, no contexto europeu, sobretudo, devido à tipologia das dunas, à especificidade dos espaços intradunares, à pujança das dunas primárias e à excelência das dunas longitudinais em presença, associadas a um grau de conservação razoável. A hidrogeomorfologia da região está marcada pela presença de lagoas naturais que constituem sistemas lacustres de água doce, pouco profundos, que se encontram em ligação hidráulica com algumas das valas e massas de água subterrâneas da região (aquíferos livres arenosos).
A área da ZEC é maioritariamente ocupada por povoamentos de pinheirobravo que cobrem mais de 70 % de toda a área, como resultado de intensa sementeira de pinhal no início do século XX com intuito de travar os avanços da duna, que devido à força dos ventos se movimentava frequentemente, invadindo os terrenos de cultivo interiores. Atualmente, o uso agrícola desta área é diminuto e sobretudo dedicado à plantação do milho grosso e da batata, assim como hortícolas para consumo doméstico.
Na globalidade, as áreas florestais representam quase 77 % da ZEC. Ocupando áreas bem mais modestas do que a floresta de resinosas, as manchas de espécies invasoras surgem como a segunda categoria mais representativa da região (8,24 %), concentrando-se essencialmente no centro e sul da ZEC. A floresta de folhosas autóctones apresenta uma área muito reduzida (2,81 %), mas ainda assim, superior à da floresta alóctone (1,86 %).
As áreas agrícolas, os prados e as pastagens, e o mosaico agroflorestal, representam conjuntamente apenas 4,37 % da área da ZEC, e em regra ocorrem em frações contíguas. Habitualmente, estas frações fazem fronteira com áreas de florestas de folhosas autóctones.
As áreas de vegetação esparsa (4 %) correspondem às praias e cordões dunares da linha de costa, as quais, pontualmente, fazem fronteira com as áreas de matos e matagais.
Os territórios artificializados são seguramente a manifestação mais evidente das atividades humanas, apesar de representarem apenas 2,70 % da ZEC. No essencial, estes territórios correspondem a:
áreas urbanas, vias rodoviárias, equipamentos culturais e zona históricas e de desporto e lazer, e pedreiras.
Verifica-se que 55,8 % da área total da ZEC foi percorrida por incêndios entre 2009 e 2017, o mais significativo dos quais em 2017, com uma área ardida de 11.173,12 ha (abrangendo mais de metade do território desta ZEC). A maior parte das áreas afetadas do incêndio de 2017 corresponderem a zonas dunares arborizadas com pinheirobravo (correspondente ao habitat 2270), aos quais se associam em subcoberto importantes áreas de samouco (habitat 5230) e habitats dunares (depressões húmidas intradunareshabitats 2170 e 2190 e dunas fixas descalcificadashabitat 2150). Foram ainda afetados habitats que se associam às margens de linhas de água e zonas lagunares, com destaque para o habitat prioritário 91E0-amiais, e o habitat 92A0-florestas galeria de Salix alba e Populus alba.
VALORES NATURAIS
Na ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas ocorrem com presença significativa 24 tipos de habitat (Quadro 2) cinco espécies da flora e duas espécies da fauna (Quadro 3), dos anexos I e II da Diretiva Habitats, respetivamente.
A ZEC assume especial relevância para a conservação de onze tipos de habitat e duas espécies da flora, valores que constituem prioridades de conservação e para os quais se impõem medidas de gestão mais urgentes (valores alvo assinalados a negrito e com um # nos Quadros 2 e 3).
É ainda considerado como valor alvo deste plano de gestão Senecio lagascanus subsp. lusitanicus (espécie da flora do Anexo IV da Diretiva Habitats, endémica do centrooeste de Portugal continental).
QUADRO 2
Tipos de habitat do anexo I da Diretiva Habitats com presença significativa na ZEC
QUADRO 3
Espécies da flora e fauna do anexo II da Diretiva Habitats com presença significativa na ZEC
OBJETIVOS DE CONSERVAÇÃO
Os objetivos de conservação para os valores alvo são identificados no Quadro 4 e constituem o quadro de referência das medidas de conservação definidas para a gestão da ZEC. São ainda identificadas as metas a atingir no período de vigência do plano e os respetivos indicadores de resultado.
Para os restantes valores naturais com presença significativa na ZEC estabelece-se como objetivo de conservação a manutenção da condição ecológica que estes valores apresentam atualmente na ZEC.
A integridade ecológica da ZEC fica, deste modo, enquadrada pelo conjunto dos objetivos de conservação definidos, cuja prossecução permitirá contribuir para os objetivos da Diretiva Habitats, ou seja, assegurar a biodiversidade através da manutenção ou restabelecimento do estado de conservação favorável dos tipos de habitats e das espécies presentes nos sítios e para a coerência da Rede Natura 2000.
QUADRO 4
Objetivos de conservação para a gestão da ZEC
MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO COMPLEMENTARES
O Plano de Gestão identifica as medidas de conservação complementares às previstas no Decreto Lei 34/2026, de 11 de fevereiro, que visam dar resposta às exigências ecológicas dos valores com prioridade em termos de conservação (valores alvo), definidas em função da condição destes e dos condicionamentos e contextos de ordem legal, social, organizacional, económica e financeira.
As medidas de conservação complementares estabelecidas para a gestão da ZEC Dunas de Mira, Gândara e Gafanhas e respetivo quadro operacional estão identificados no Quadro 5, com a definição dos indicadores de realização, as respetivas metas, as entidades envolvidas na execução e a calendarização.
A informação relevante para a execução das medidas de conservação complementares é apresentada de forma detalhada nas “Fichas das Medidas de Conservação Complementares”.
QUADRO 5
Quadro operacional das medidas de conservação complementares
MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO REGULAMENTARES
O plano de gestão aplica-se complementarmente a um conjunto de medidas de natureza regulamentar e preventiva, identificadas e operacionalizadas no Decreto Lei 34/2026, de 11 de fevereiro.
VIGÊNCIA DO PLANO DE GESTÃO
O plano de gestão terá uma vigência de dez anos.
ACOMPANHAMENTO
A execução do plano de gestão é objeto de acompanhamento continuado ao longo do seu período de vigência.
O acompanhamento é coordenado pelo ICNF com a participação das autoridades corresponsáveis em razão da matéria, das administrações central e local, das entidades representativas dos agentes e operadores dos setores económico, social, da sociedade civil e dos proprietários, relevantes para a prossecução dos objetivos do plano.
Será efetuada uma avaliação intercalar ao quinto ano de vigência do plano, a qual incluirá o ponto de situação intermédio da execução das medidas, um balanço das medidas concluídas, das medidas em curso e das medidas não iniciadas. Da análise da realização intermédia atingida face às metas estabelecidas para a medida, a entidade responsável pelo acompanhamento do plano de gestão deverá decidir sobre as alterações necessárias no plano de gestão, num quadro de articulação institucional, a propor às respetivas tutelas. Caso seja necessário, deverá ser elaborada uma versão revista das fichas das medidas de conservação.
No final do seu período de vigência, a eficácia do plano de gestão deve ser avaliada num exercício de análise cruzada entre o grau de execução das medidas de conservação e a evolução da condição dos valores alvo. Para esta avaliação relacionam-se os resultados finais da execução das medidas (através dos indicadores de realização) e do cumprimento dos objetivos de conservação (através dos indicadores de resultado). O relatório desta avaliação final deverá também incluir a análise da evolução dos fatores externos com eventual impacto na gestão da ZEC (por exemplo, das pressões e atividades mais relevantes, das condicionantes legais e dos instrumentos de financiamento das medidas de conservação), a descrição da análise efetuada no período em causa para a evolução dos indicadores de realização, a descrição das alterações intercalares efetuadas e respetiva fundamentação, e as propostas de alteração do plano de gestão.
A aferição dos indicadores de resultado decorrerá dos procedimentos correntes de monitorização da Rede Natura 2000 a que o Estado português está obrigado no âmbito da implementação da Diretiva Habitats.
O Quadro 6 estabelece a correspondência entre as medidas de conservação complementares e os objetivos de conservação para os quais concorrem, cuja avaliação final permite decidir sobre a necessidade de manutenção/exclusão/alteração da medida no ciclo de programação seguinte. No referido quadro são assinalados (a cinza) os campos a preencher em sede de avaliação final da implementação do plano de gestão.
QUADRO 6
Modelo de matriz de avaliação final da implementação do plano de gestão
FICHAS DE MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO COMPLEMENTARES
Fontes de FinanciamentoGlossário:
PEPACPlano Estratégico da Política Agrícola Comum para Portugal 2023-2027;
Centro 2030-Programa Operacional Regional do Centro (FEDER);
LIFEInstrumento de financiamento da União Europeia para o ambiente e a ação climática;
PRRPlano de Recuperação e Resiliência;
I&D-Investigação e Desenvolvimento;
OEOrçamento de Estado;
OMOrçamento Municipal PNA-PNGIFR-Programa Nacional de Ação do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais.
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